12/03/2007
Haitiano
em campanha de solidariedade no Rio de Janeiro
.“Chega
de ocupação econômica e militar”, é o grito
da Campanha de Solidariedade com o Haiti. Não ao país, mas
ao povo haitiano, lembra Didier Dominique, coordenador da Batalha Operária,
movimento sindical e social que atua nas diversas zonas francas daquele
país, em coletiva de imprensa no Rio de Janeiro, na manhã
de sexta-feira.
.Por
Nestor Cozetti, da Renajorp, para o Jornal 'Brasil de Fato'
“Chega
de ocupação econômica e militar”, é o grito
da Campanha de Solidariedade com o Haiti. Não ao país, mas
ao povo haitiano, lembra Didier Dominique, coordenador da Batalha Operária,
movimento sindical e social que atua nas diversas zonas francas daquele
país, em coletiva de imprensa no Rio de Janeiro, na manhã
de sexta-feira (9/3). Zonas francas são áreas que as multinacionais
alugam ao Estado para pôr suas fábricas têxteis (Lewis,
Wrangler, etc.), por exemplo. Não possuem alfândegas e podem
ter aeroportos. Sua produção é toda para fora do país.
Estão construindo uma ao lado da Cité Soleil, com 200 mil
habitantes, a maior favela da capital, Porto Príncipe.
Tudo começou
na década de 80, no governo de Ronald Reagan, com a Caribean Basic
Initiative – CBI, ou seja, um zoneamento de exploração da
mão-de-obra barata, que percorreu antes a América Central.
No Haiti iniciou-se com a destruição da economia local: de
arroz, café e açúcar que hoje é 100% importado.
Com a destruição da economia agrícola a população
forçosamente migrou para as cidades aumentando as favelas. Um exército
de mão-de-obra barata, fonte de superlucros: o produto com que se
gastam 200 dólares para fabricar nos EUA sai apenas por dois no
Haiti. Tal como antes na Ásia e hoje na China. Assim, a vantagem
competitiva do país está em quanto menor for o preço
da sua mão-de-obra.
No debate
à noite Didier intitulou sua fala de ‘Todas as roupagens da mentira’.
“O Brasil – denunciou – não pode ser para o Haiti o que os Estados
Unidos são para o Iraque. O haitiano é um povo que está
morrendo”. Ao lembrar que um jornal daqui noticiou que os brasileiros estão
lá para treinar, disse ao público presente que estamos “numa
luta comum contra essas matanças cotidianas”, já que acontecem
também nas favelas brasileiras. “Não é apoiar, é
uma luta comum, pois se estão lá para treinar será
para depois reprimirem também a vocês brasileiros”.
O fato é
que o Estado haitiano não tem condições de conter
a revolta de um povo tão explorado e esfomeado. Precisa da Minustha
(Missão das Nações Unidas de Estabilização
do Haiti). A polícia haitiana não pode conter um levante
popular. Não querem que se acabe com os bandos armados, porque senão
não haverá motivos para a continuação das forças
da ONU de ocupação. Que é, segundo Didier, “uma força
de terror, atirando em igrejas, escolas e hospitais”. Ou seja, uma missão
de estabilização que na verdade e na prática funciona
como polícia.
O incrível
suicídio do general brasileiro no Haiti
“Suicidou-se
de calção? Nós pensamos que o mataram. Até
porque, desde então, as tropas passaram a matar”, revela Didier
referindo-se ao suicídio do general brasileiro Urano Teixeira da
Matta Bacellar, em janeiro de 2006. Ele era comandante da Minustha, liderada
pelo Brasil, e foi encontrado morto no quarto do hotel onde estava hospedado,
em Porto Príncipe. Membros da ONU cogitaram da hipótese de
suicídio. Esclarece Didier que “o primeiro chefe das tropas brasileiras,
o general Ribeiro, disse em entrevista que assisti pela televisão:
‘Não vou fazer o que estão pedindo representantes da Câmera
do Comércio. Tenho filhos e não quero que seus colegas digam
que seu pai é um criminoso’”.
As tropas brasileiras
antes eram formadas por voluntários, hoje por profissionais. “Os
cubanos mandam médicos, agrônomos. Os brasileiros do MST fazem
intercâmbio conosco. Isto é melhor do que quaisquer forças
armadas. Estas não são aceitáveis, são insuportáveis”,
desabafa o haitiano. “O contexto é o mesmo em todo o mundo: os EUA
disseram que vão dominá-lo”. Também coincide, segundo
ele, com o “refluxo, timidez ou covardia da esquerda de hoje”.
O conceito
de força de paz tem que responder à pergunta: “Se o general
diz que manda as tropas lá para treinar, como são forças
de paz?” Eis as razões pelas quais é um povo que está
morrendo: 1,65 dólar por dia. “O salário de miséria
significa um plano de eternizar a miséria. Não podem comer
o almoço. Tomam uma aguardente ao meio-dia para ter energia para
trabalhar. São impossibilitados de viver com um mínimo de
decência. Para manter esta miséria generalizada, praticam
uma feroz repressão anti-sindical. E ali está o Estado e
as multinacionais como abutres em cima do povo moribundo. Um Estado burguês
que aplica a lógica do capitalismo e do imperialismo”.
No Haiti foram
dois dias de carnaval quando o Brasil ganhou a Copa mundial de futebol
pela última vez. Hoje eles dizem estar “muito tristes com as tropas
brasileiras, por causa do nosso amor pelo futebol brasileiro. A gente odeia
as forças de estabilização. Viva Adriano, abaixo o
general Ribeiro (o comandante da primeira tropa brasileira no país)”.
É a frase pichada na capital e em quase todas as cidades do país.
Entretanto, os Estados Unidos estão negociando a construção
de duas bases militares, uma ao norte, perto de Cuba, outra ao sul, em
frente à Venezuela.
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