31/10/2006
Repressão mata ativistas no México
.Estimativas dos movimentos sociais de Oaxaca, no México, indicam entre seis e onze mortos pela repressão do PRI
.Da ADUFRJ - Seção Sindical dos Docentes da UFRJ. Imagem: Latuff.


Além dos mortos, mais de 30 feridos a bala, pelo menos 45 desaparecidos e pelo menos 19 militantes detidos ou seqüestrados. Este é o saldo atual da repressão comandada pelo governador Ulissez Ruiz do Partido Revolucionário Institucional (de direita) contra o levante popular em Oaxaca, México. Só na última sexta, 27/10, dois ativistas e um jornalista foram mortos pela ação da polícia e paramilitares. As vítimas são o professor Emilio Alonso Fabián, o militante Esteba Ruiz e o jornalista americano Bradley Roland Will, documentarista do Indymedia de Nova Iorque.

Imagem: Latuff
Segundo o Jornal La Jornada, da Universidade Aberta do México, nos últimos dias outras três pessoas foram vítimas da ação contra o movimento grevista dos professores de Oaxaca que se encontram paralisados desde maio deste ano. Na tarde do domingo, 29/10, a Polícia Federal Preventiva (PFP), do governo Ruiz, invadiu a capital e o centro histórico da cidade com tanques e dispararam fogo contra os manifestantes durante mais de duas horas. No confronto, morreram, o enfermeiro Jorge Alberto López Bernal, o professor Fidel García e um menor de 14 anos, não identificado.

Centro turístico do Sul do país, Oaxaca é hoje rodeada de favelas cuja população sobrevive de remessas de trabalhadores imigrantes, enviados clandestinamente para trabalhar nos Estados Unidos. Uma população empobrecida, mas organizada em cerca de 350 comunidades indígenas, sindicatos e associações civis que formaram a Assembléia Popular do Povo de Oaxaca (APPO). Segundo o editor de Opinião do La Jornada, Luiz Hernández Navarro, o sindicato dos professores de Oaxaca tem sido a única força social democrática com presença em todo o estado.

“Os professores oaxaquenhos trabalham em condições precárias, com poucos recursos pedagógicos. Seus alunos chegam às escolas com o estômago vazio e precisam abandonar as aulas para ajudar suas famílias nos trabalhos do campo. Não são poucos os que quase não conhecem seus pais, porque eles emigraram para os Estados Unidos. Nessas condições, tem sido uma constante na história recente que os professores se identifiquem com as comunidades nas quais trabalham e que se transformem em lutadores não apenas dentro do seu setor, mas que sejam, também, porta-vozes das demandas comunitárias”.

Protesto começa no dia do Professor naquele país, 15 de Maio

O protesto em Oaxaca começou como expressão da luta do magistério por Aumento salarial e contra o empobrecimento da população imposto pelas políticas do governo do PRI, especialmente com relação ao turismo local que aumentou imensamente o custo de vida para os trabalhadores oaxaquenhos. A mobilização e greve dos professores contou com o apoio total do povo da região que aumentou a resistência a partir da repressão violenta desencadeada pela ação paramilitar do governo contra os ativistas e militantes sociais. “Em vez de procurar canais para viabilizar uma solução, o governo federal optou por desentender-se do conflito e disse que era um assunto local, no qual não tinha ingerência”, comenta Luiz Navarro, em artigo publicado pela Agência Carta Maior (20/10/06).

Resistência dos movimentos é tratada violentamente por governador empossado

O estopim do confronto foi a suspeita de fraude na vitória apertada de Ulises Ruiz sobre Gabino Cué, candidato apoiado pelo ex-governador Diódoro Carrasco e por uma coalizão da maioria dos partidos de oposição. Os professores em greve foram às ruas, junto do movimento popular organizado pela Assembléia Popular do Povo de Oaxaca, questionar a imposição de Ulises e têm sido duramente reprimidos também pelo governo do presidente Vicente Fox que mandou as tropas federais para apoiar Ulises e reprimir o levante pacífico. Segundo nota da APPO, 4 mil soldados federais se posicionaram no último domingo (29/10) no centro da Cidade de Oaxaca em um ultimato para que os movimentos sociais retirem as barricadas das ruas e desocupem os prédios públicos.

Apesar da insatisfação popular com o resultado das urnas, Ruiz diz que sua renúncia não está em discussão e classificou, segundo noticiário do El Jornada (30/10) como ‘radicais e violentos’ os integrantes da APPO. A resistência dos professores e dos movimentos fez, no entanto, com que o governador abrisse a possibilidade de negociação com os grevistas em torno do que chamou de ‘melhorias na qualidade da educação’ naquele estado.

Professores permanecem em greve

Apesar de parte do movimento grevista ter sinalizado desde a semana passada pelo retorno às aulas, o fim da paralisação do magistério em Oaxaca ainda não está definido. Segundo o noticiário mexicano, o dirigente do movimento docente oaxaquenho, Enrique Rueda, disse nessa segunda-feira, 30/10, que apesar da existência de uma proposta de acordo para acaber com a greve, o regresso dos professores é parcial pois ainda há muitas pendências. O dirigente sindical afirmou ainda que a APPO quer chegar a um acordo, mas que o fim dos conflitos em Oaxaca não vai ser resolvido com a permanência da Polícia Federal Preventiva nas ruas.

Andes-SN se reúne para discutir formas de ajudar os companheiros de Oaxaca

Segundo o ex-diretor do Sindicato Nacional dos Docentes (Andes-SN), Roberto Leher, a repressão no México atingiu principalmente os professores da Sindicato Nacional de Trabalhadores em Educação daquele país, “uma agremiação democrática e socialista que sempre esteve na vanguarda da luta contra o sindicalismo oficial amalgamado ao PRI e depois ao Partido da Ação Nacional. (PAN), do presidente Fox e Caldeiras, e que está na coordenação da Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca”. O Andes-SN marcou para a última segunda (30/10), uma reunião em sua sede em Brasília para discutir formas de solidariedade ao movimento dos professores e da população de Oaxaca.

 
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