Imprensa
ignora realidade das comunidades populares
.Na cobertura de temas que envolvem comunidades populares, profissionais não ouvem todos os lados e levam informações erradas para a sociedade. Essa é a opinião de João Roberto Ripper, repórter-fotógrafico desde 1972, quando tinha apenas 19 anos. Para o profissional que idealizou a Escola de Fotógrafos Populares da Maré, os jornalistas apresentam para a sociedade uma versão de que é nas comunidades populares que surge a violência. “Mas, na favela não se produzem armas e nem drogas. É justamente o contrário: essa violência vem de fora para dentro das favelas”, revela. Por Antonio Vianna e Ana Manuella Soares, Jornalistas Populares, julho de 2006
Há três anos, Ripper criou a agência Imagens do Povo que conta com um banco de imagens produzido por profissionais formados pela Escola de Fotógrafos Populares, abrigada pelo Observatório de Favelas do Rio de Janeiro. O Observatório é uma rede de pesquisadores e estudantes de diversas instituições que promove projetos pedagógicos na comunidade da Maré, na cidade do Rio. Nas favelas, a violência vem de fora Ripper idealizou a Escola de Fotógrafos Populares para formar jovens moradores de comunidades fluminenses. O fotógrafo considera fundamental o papel dos jornalistas na transmissão da realidade social e considera que a imagem das comunidades só será alterada quando os profissionais de jornalismo forem oriundos das próprias comunidades. “Os jornalistas apresentam para a sociedade uma versão de que é na favela que está o problema e que de lá é que vem a violência. Mas, na favela não se produzem armas e nem drogas. É justamente o contrário: essa violência vem de fora para dentro das favelas”, afirmou.
Segundo ele, a mídia cria um medo da população de circular em determinadas localidades da cidade, consideradas violentas pela imprensa: “Eu entro no Complexo da Maré todos os dias e nunca fui assaltado, enquanto em Botafogo roubaram meu laptop. Entretanto, as pessoas, em geral, têm muito mais medo de entrar na Maré do que andar em Botafogo e isso se deve à visão que é passada para elas”, afirmou. “Chega de jornalista chato” Ripper contou ainda sobre o litígio com o jornal O Globo, desde que deixou a redação há mais de dez anos: “Fui de lá para o sindicato denunciar. Lutei pelos créditos nas fotos, pelo piso pago por cada arquivo, pela ética profissional e não fiquei bem visto no jornal”. O fotógrafo disse que não vende fotos com denúncias que sirvam apenas para ilustrar matérias de jornais ou revistas: “Documento questões de terra há quase 30 anos. Como vou pegar metade deste trabalho e vender para a Veja, sabendo que ela pode deturpar a realidade? Vai que alguém publica, junto de uma foto sobre trabalho escravo, um texto dando a idéia de que isso seria positivo, pois eles (trabalhadores do campo), pelo menos, não estariam passando fome? Por isso, eu não vendo”. Na avaliação do fotógrafo social, o bom profissional deve ser criativo, “dar voz” a todos os segmentos e não “pré-editar” conceitos onde algumas camadas sociais são sempre vistas como vilãs. Para Ripper, as comunidades populares têm muito mais para mostrar do que as imagens negativas que são apresentadas pelos jornais, todos os dias. Para o fotógrafo, a vida urbana é recheada de carências, mas isso não significa, automaticamente, que é a população das favelas a geradora de violência. Ao contrário, a violência está na falta de falta de políticas públicas, na ação descontrolada da polícia, na presença nessas comunidades do “Caveirão’, que aterroriza crianças e adultos, entre outras ações que não são veiculadas pela grande mídia. No seu discurso, Ripper aproveitou para deixar um recado para os estudantes, futuros jornalistas. “Quando entrarem numa grande empresa, cheguem de cabeça arejada, sem criar antipatias premeditadas. Deixem todas as pessoas falarem porque, na hora que tiverem que demitir, demitirão ‘o careta’ e o ‘não careta’. Vamos viver e ser criativos. Chega de jornalista chato”, sentenciou. Veja as fotos abaixo:
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