A mídia quer pôr fogo na crise do gás
.A decisão do recém-eleito presidente da Bolívia, Evo Morales, de nacionalizar a exploração do gás e do petróleo de seu país ganhou cores catastróficas e sons de trovão na grande mídia, que caprichou na omissão, distorção, exagero e outros mecanismos que nada têm a ver com jornalismo sério. Da Renajorp, maio de 2006


A decisão do recém-eleito presidente da Bolívia, Evo Morales, de nacionalizar a exploração do gás e do petróleo de seu país ganhou cores catastróficas e sons de trovão na grande mídia. Revistas, jornais, tevês e rádios noticiaram o que não aconteceu e esconderam os verdadeiros motivos do que aconteceu. Com exceção de “Carta Capital”, a enorme maioria da grande imprensa praticamente acusou Morales de roubar, tomar, expropriar, a Petrobrás. 

Em 10 de maio, por exemplo, a revista Veja em seu pior estilo panfletário trouxe uma capa em que Lula aparece de costas, com a marca de um pé no traseiro. Sobre a frase “O ataque à Petrobras,” a manchete: “Essa doeu!”. Embaixo, o que deveria ser a explicação, mas é pura confusão: “Lula dormiu como o 'grande guia' da América Latina e acordou como mais um bobo da corte do venezuelano Hugo Chávez, que tramou o roubo do patrimônio brasileiro na Bolívia”.

A revista “Isto É” não ficou atrás. Na mesma semana, trazia uma capa nada sutil. Ao lado de uma montagem em que o retrato de Morales aperece colado a um botijão de gás, com um pavio aceso, a manchete: “O homem que pode parar o Brasil”.  Embaixo, nova explicação trágica e distorcida: “Com militares, ele tomou conta de um complexo de US$ 1,5 bilhão da Petrobras, humilhou a diplomacia de Lula e trouxe de volta o fantasma de desabastecimento de um item vital: o gás”.

Estas e outras publicações, jornais, programas de noticiário, capricharam na omissão, distorção, exagero e outros mecanismos que nada têm a ver com jornalismo sério. O botijão da capa de “Isto É”, por exemplo, acena com o fantasma do desabastecimento. Mas, o consumo de gás natural no Brasil atinge apenas cerca de 2%das pessoas físicas. E se não bastasse isso, o Brasil exerce o que os economistas chamam de oligopsônio em relação ao gás boliviano. O palavrão quer dizer que o mercado brasileiro monopoliza quase todo o consumo do gás produzido na Bolívia. Se o país de Morales quiser vender gás, tem que ser pra nós.

“Veja” fala em trama por parte de Hugo Chávez, mas não diz que o decreto editado por Morales somente regulamenta lei aprovada  em 17 de maio de 2005, quando o presidente era Carlos Mesa. E esta lei, por sua vez, foi resultado de um plebiscito realizado em julho de 2004. Sob enorme pressão de movimentos sociais, o resultado da consulta foi por, esmagadora maioria, pela nacionalização da exploração e comercialização do gás. Nada disso tem a ver com Chávez, mas com a vontade do povo boliviano. Principalmente, de sua parte mais pobre e explorada. Na verdade, “Veja” morre de vontade de acusar a ambos de serem de origem indígena. E como tal, são culpados por serem de origem pobre. Pobreza e criminalidade viriam de mãos dadas. E assim vai. Infelizmente, essa ligação foi feita de maneira mais explícita e estúpida por Chico Caruso em O Globo do dia 18 de maio. Logo após os atentados do PCC em São Paulo, o talentoso cartunista revolveu relacionar Morales a um dos líderes da organização criminosa. 

Outra omissão generalizada por parte da imprensa foi o papel do governo FHC em todo esse processo. Com raras exceções, ninguém apareceu para explicar porque a Petrobrás estava explorando gás na Bolívia, quando não precisávamos de um combustível que pode ser encontrado na bacia de Santos, no Brasil. Tudo começou com o desastroso racionamento de energia elétrica em 2001. O famoso “Apagão” foi a desculpa encontrada pelos tucanos para construir termoelétricas. E estas utilizam gás natural. Até aí, compreensível. O problema é que começamos a comprar da Bolívia muito mais gás do que precisávamos. Durante cinco anos, a Petrobrás importou 18 milhões de metros cúbicos do produto, mas pagou por 25 milhões. Seria caridade tucana para com povo boliviano? Não, mesmo!

É Fernando Siqueira, diretor da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (Aepet), quem explica, em matéria de Gilberto Maringoni para a Agência Carta Maior. Segundo ele, os beneficiados, eram as empresas Total (França), Repsol (Espanha), Amaco (EUA) e Enron (EUA). “Elas exploravam, em 1998, reservas de 400 milhões de metros cúbicos e pressionaram o Brasil a mudar sua matriz energética hídrica, criando assim mercado para o gás”, diz Siqueira. 

Outro oportunismo da grande imprensa é ficar chorando lágrimas de crocodilo por um patrimônio nacional que o governo que apoiou entregou ao capital privado e estrangeiro. Quase 70% das ações da Petrobrás são controladas por empresários privados. Destes, cerca de 40% são estrangeiros. O petróleo é nosso, mas a Petrobrás já foi entregue. E não é para os bolivianos.

Este episódio nos dá mais um exemplo dos mecanismos que já nos são familiares desde que Perseu Abramo publicou “Padrões de manipulação na grande imprensa”, quase 20 anos atrás. 
 

 
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Por Lycia Ribeiro e Sérgio Domingues, da Rede Nacional de Jornalistas Populares - Renajorp

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